- 06/08/2026
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- Viagem Medieval em Terra de Santa Maria
Joel Cleto: “A performance da Custódia Gallego e do Tiago Aldeia é fabulosa”
O historiador e comunicador Joel Cleto é o autor do guião do espetáculo “O Discurso do Rei – na véspera da história”, protagonizado pelos atores Custódia Gallego e Tiago Aldeia, todos os dias, às 23h00, na praça de armas do Castelo de Santa Maria da Feira.
Joel Cleto já assistiu ao espetáculo e fala-nos um pouco do conceito, do processo criativo e do impacto daquele que é um dos grandes destaques da programação dos 30 anos da Viagem Medieval.
VM: Como descreve, de forma breve, este espetáculo?
Joel Cleto: “O Discurso do Rei – na véspera da história” é um diálogo intimista, que retrata um hipotético confronto verbal entre a condessa portucalense Dona Teresa e o jovem Afonso Henriques, futuro rei de Portugal. São eles, em 1128, as figuras centrais na disputa do poder neste território no extremo oeste da Europa. Não é apenas uma disputa de poder entre duas personalidades. Eles representam também duas correntes em confronto: os que desejam um grande reino neste noroeste da Península Ibérica, juntando o Condado Portucalense e a Galiza, e aqueles que defendem que o Condado não deverá ter qualquer ligação aos galegos. Mas este diálogo, esta confrontação verbal, é também um confronto psicológico, porque, afinal, estamos também face a uma mãe e ao seu filho. Um diálogo, por isso, tenso, não raras vezes conflitual, mas marcado também por momentos de empatia e ternura. Que não impedirão, contudo, no dia seguinte (24 de junho de 1128) um embate bélico entre os dois – a batalha de S. Mamede – e a vitória de um deles sobre o outro.
VM: O que mais o entusiasmou na elaboração do conteúdo do guião? Qual foi o maior desafio?
Joel Cleto: Apesar de ficcionada, entusiasmou-me a possibilidade de, enquanto historiador, procurar abordar a dimensão mais pessoal e intimista destas duas personalidades, cruciais na origem da nacionalidade, e que os documentos e as velhas crónicas obviamente não transmitem. Por outro lado, e numa visão da historiografia dos nossos dias, necessariamente mais isenta em relação às velhas versões nacionalistas, procurei, nas entrelinhas, contribuir para uma reflexão dos espectadores. Afinal havia, entre os argumentos de Teresa, alguns com os quais não podemos deixar de concordar. E, por outro lado, o jovem Afonso representava mesmo os interesses senhoriais de um grupo de fidalgos que não via com bons olhos a influência e protagonismo… de outros senhores.
VM: O Joel Cleto já assistiu ao espetáculo na praça de armas do Castelo da Feira. Gostou? O que destaca na performance dos dois atores?
Joel Cleto: Gostei muito do espetáculo! A encenação é muito boa e a performance da Custódia Gallego e do Tiago Aldeia é fabulosa. Os silêncios, que eu não coloquei no texto, mas que o encenador e os atores desenvolvem no diálogo, são fantásticos. Ensurdecedores!
VM: O enquadramento arquitetónico e o simbolismo do Castelo da Feira são uma mais-valia?
Joel Cleto: Obviamente, o facto de o espetáculo decorrer no castelo é uma enorme mais-valia. Desde logo, porque a sua arquitetura (mesmo sendo mais tardia em relação aos acontecimentos abordados) nos transfere e nos faz viajar de imediato para a Idade Média. Por outro lado, uma vez que nos encontramos num espaço interior, embora a céu aberto (a praça de armas), consegue-se um ambiente mais intimista e recatado, fundamental para vivenciar este diálogo. Não teria, seguramente, o mesmo impacto se fosse apresentado num outro espaço, mais aberto e buliçoso, da Viagem Medieval.
VM: O espetáculo tem a duração certa?
Joel Cleto: Acho que sim. São cerca de 30 minutos. Confesso que, de algum modo, utilizei a mesma estratégia que sigo nos meus programas televisivos, que têm sensivelmente esta mesma duração. Ou seja: deixar no espectador a perceção ou vontade de “ah… ficava de bom grado mais uns minutos a ouvir”. Claro que, em apenas meia hora, conseguir sintetizar o que separa politicamente Teresa de Afonso, fazê-los evocar assuntos pessoais para “ferir psicologicamente” o outro, e, no meio de tudo isto, conseguir ainda momentos de aproximação e de amor entre uma mãe e um filho, tudo isto em 30 minutos, não é fácil. Felizmente, temos a enorme felicidade de contar com a magistral e profissional interpretação da Custódia e do Tiago que, em tão curto espaço de tempo, conseguem alterar os seus discursos e assumir estes tão diferentes posicionamentos psicológicos.
VM: Alguma curiosidade que gostasse de referir?
Joel Cleto: Pessoalmente, é sempre um prazer enorme regressar a este castelo. Durante a minha infância, passava uma parte importante das férias de verão na região (os meus avós maternos viveram durante muitos anos em S. João da Madeira) e, quando os meus pais vinham ter comigo, estava sempre a pedir-lhes para vir ao castelo. Tenho várias fotos, em criança, no castelo. E também na sua “réplica” no “Portugal dos Pequenitos”. Este é, definitivamente, o castelo do meu imaginário de infância. Que privilégio estar agora a escrever guiões para peças representadas no seu interior! Já no ano passado redigi o “Monólogo do rei Afonso V”.

